Transcription of:
What is an accessible museum website? Evaluation Methodologies and Good Practices.
English Transcription
PATRÍCIA MENDES:
... E agradecer à organização por esta oportunidade.
Eu sou a Patrícia Mendes, estou a desenvolver uma dissertação de mestrado sobre acessibilidade e usabilidade de websites de museus e hoje venho focar-me no aspecto da acessibilidade.
"O que é um website de museu acessível? Metodologias de Avaliação e Boas Práticas".
Quando pensamos num museu inacessível fisicamente, podemos imaginar, por exemplo, esta imagem, em que vemos um homem numa cadeira de rodas em frente a uma escadaria. Ele quer chegar a uma sala de exposições que está no topo das escadas, mas não consegue.
Quando vamos ao site queremos aceder a conteúdos, como vídeos e artigos; informações, como horários e preços, ou funcionalidades, como a bilheteira.
E, se não conseguirmos lá chegar, ou se algumas demografias tiverem muita dificuldade em chegar a esse objectivos, então é porque o site não está acessível. É uma boa notícia: é que quando fazemos um aspecto do website acessível a algumas demografias, na verdade, há efeitos secundários que beneficiam a todos.
Por exemplo, legendas em vídeos. Quem é que as usa? Inicialmente pensamos, e é verdade: 68% das pessoas que usam legendas em vídeos, neste caso, estudantes deste estudo, são estudantes com dificuldades de audição. Mas há um número significativo que é: 49% de estudantes sem dificuldades de audição também preferem usar legendas nos vídeos porque isso aumenta a sua compreensão dos conteúdos.
Então: as legendas tornam o conteúdo mais acessível para pessoas surdas, mas também pessoas com outra língua materna, pessoas com dificuldades de aprendizagem, ou que queiram compreender melhor a informação. Portanto, o que beneficia a uns, também afecta outros.
A organização internacional W3C é a organização que desenvolve os critérios de acessibilidade web que são o standard internacional.
São as Web Content Accessibility Guidelines; e, em Portugal, também temos o Decreto-Lei da Acessibilidade dos sítios web e das aplicações móveis que são guias que nos podem permitir avaliar estes critérios e verificar a acessibilidade dos websites.
Para isso, é preciso- podemos utilizar validadores automáticos, que fazem uma parte dessas verificações; verificações manuais, que são a maioria das restantes, e também é importante fazer testes de usabilidade com utilizadores reais, a nossa demografia do museu, a utilizar o site, para podermos identificar os seus problemas reais, no uso real.
Então quem são os utilizadores que podemos estar a excluir?
Podemos estar a excluir, por exemplo, nestas personagens fictícias: O João, que tem um braço partido, e por isso não consegue usar o rato com facilidade, por isso ele navega através das teclas do teclado. Ele também tem transtorno de défice de atenção, por isso, muito ruído visual na página – muita informação, muito texto – torna a sua experiência muito mais complicada; a Ana, por exemplo, que vê mal ao perto devido à idade: quando há texto ou imagens com pouco contraste, também se torna difícil para ela. E o Diogo, que é cego, utiliza um leitor de ecrã que lê o texto que está no ecrã para ele saber o que está a ver.
E eu hoje trago três exemplos de obstáculos, e soluções, de critérios que podemos verificar, que são: erros, zoom do texto e acessibilidade a teclado.
Os erros afectam, principalmente, o João, devido ao défice de atenção, e também demora mais tempo a fazer as coisas através do teclado; o Diogo, que é cego e utiliza o leitor de ecrã, mas também todas as pessoas no geral.
Nesta imagem vemos um formulário de marcações no Museu Nacional de Arte Antiga.
Imaginemos que o João – que é o que tem défice de atenção... - vem marcar visita para um grupo e não há nenhum- nenhum dos campos de formulário tem asterisco. Nenhum está marcado como campo obrigatório. Por isso, ele preenche apenas as partes que acha que são relevantes. Mas, quando ele clica em submeter, há alguns campos que ficaram a amarelo mudaram de cor, para amarelo. E, portanto, ele, agora, vai ter de rever o formulário todo outra vez para perceber o que é que fez mal ou o que é que era preciso preencher.
O Diogo tem a experiência ainda mais complicada, porque o leitor de ecrã não adivinha que estas letras estão a amarelo. E ele tem de ir até ao fundo da página para ver este texto que diz "preencha correctamente os campos assinalados."
E agora vocês também poderão ver que a boa prática também é muito mais intuitiva, ou uma melhor prática, na verdade, esta não é a melhor de todas, mas é melhor nestes aspectos que eu mencionei. No site da Fundação Calouste Gulbenkian temos um formulário que tem os campos obrigatórios assinalados com um asterisco e, quando se carrega em submeter, existe uma mensagem com os erros identificados e descritos em texto junto ao campo que tem o erro.
O Zoom do texto: afecta principalmente a Ana, que tem dificuldades a ver; mas também qualquer pessoa com dificuldades de visão, mesmo que não tenha deficiência visual, qualquer pessoa com dificuldades de visão – pode ser mais difícil, pode querer usar o zoom do texto.
O que é que isto significa? A Ana, como vê mal, aumentou, no seu browser, nas definições, pediu para aumentar o tamanho do texto. Então, nesta imagem vemos o site do Berardo e eu agora vou aumentá-lo para 200% e podemos ver que há botões que desapareceram, portanto, deixaram de estar funcionais; há texto que é cortado; e também há texto a sobrepôr-se com outro texto, portanto, torna-se impossível de ler. E a boa prática indica que, quando se aumenta texto até pelo menos 200%, nenhum texto é cortado, nenhum texto se sobrepõe, e todos os elementos continuam funcionais. E pudémos ver neste exemplo que isto não aconteceu neste site.
Por fim, a acessibilidade a teclado, que afecta, principalmente, o João, que tem o braço partido, o Diogo, que é cego, e pessoas dependentes de tecnologias de apoio.
Eu não me vou aprofundar sobre isto, mas a verdade é que, quando, devido a haver muitos critérios em comum, quando uma coisa está inacessível a teclado, também está inacessível a outras tecnologias de apoio, como de reconhecimento de voz – softwares de reconhecimento de voz –, e leitores de ecrã. Por isso, afecta muitas pessoas ao mesmo tempo.
Vou mostrar-vos uma boa prática, e que também é um bom exemplo para perceberem o que é isto de navegar com o teclado. O João vai ao site – que tem o braço partido –, foi ao site do Victoria & Albert Museum e ele, através do teclado, pode andar entre os elementos que pode seleccionar, vemos um rectângulo branco à volta do elemento que ele vai poder activar, a navegar na página. E, neste caso, o foco é visível, portanto, ele consegue perceber bem o que está a fazer.
Outra questão de acessibilidade a teclado é que todos os elementos têm de estar interagíveis através do teclado.
Portanto, por exemplo, o João foi ao site do Museu Coleção Berardo para comprar um bilhete na bilheteira online e, a certa altura, aparece esta janela de pop-up que lhe pede para confirmar a compra. Tem um botão que diz: "Comprar", o João tenta lá chegar através do teclado, mas não consegue. E ele até tenta carregar no Escape, para fechar esta janela, e também não consegue. Portanto, ele ficou preso nesta página, não consegue comprar o bilhete, nem sequer consegue sair desta janela.
O Diogo: é uma situação ainda mais engraçada, que não tem graça nenhuma. Ele é cego e o leitor de ecrã, na verdade, está a ler todo o texto que está atrás da janela e não reconhece esta janela pop-up. Está invisível. Portanto, ele nem sequer sabe o que é que se está a passar, quando ele não consegue comprar o bilhete.
E eu vou poder- Eu confirmei isto com duas utilizadoras cegas que fizeram um teste de usabilidade para esta comunicação, para efeitos desta comunicação, e é esta parte que eu agora vos vou abordar. É a terceira parte da avaliação.
Aliás, agradeço às duas voluntárias que fizeram... este... Muito obrigado [risos].
Portanto, no teste de usabilidade, temos de escolher qual é o nosso objecto de avaliação, o objecto de estudo. Neste caso, eu pedi que comprassem um bilhete, através do computador, poderia ter sido o telemóvel; escolher a demografia que, neste caso, foram duas utilizadoras cegas, que utilizam o leitor de ecrã NVDA, e são frequentadoras de museus. Portanto, são o público alvo, neste caso.
E a seguir a fazer-se o teste, deve-se sistematizar os resultados: verificar os problemas prioritários para poder corrigi-los.
Os resultados do meu teste: Ora, foi a compra de um bilhete no site do Museu Colecção Berardo e no da Fundação Calouste Gulbenkian. As duas utilizadoras conseguiram encontrar a bilheteira, no site do Berardo. Demoraram dois minutos e nove minutos, respectivamente, até encontrá-la.
No site da Gulbenkian, nenhuma conseguiu encontrar a bilheteira. Podem imaginar a frustração de passar 34 minutos e 18 minutos à procura, sem conseguir encontrar a bilheteira. No caso deste teste, nenhuma chegou à fase da compra do bilhete. No caso do Berardo, pelo erro que já mencionei, nenhuma, também, conseguiu comprar o bilhete. Ficaram oito minutos e 23 minutos à procura, até desistir.
E, por fim, da fase do teste, faço uma síntese dos problemas identificados, dos quais eu vou mostrar apenas alguns.
O Pop-up – a janela pop-up – não é lida pelo leitor de ecrã, como já tinha mencionado, e, portanto, não é possível comprar bilhete; não há mensagens de erro, por isso, ambas ficaram quatro, cinco vezes, a ir até ao carrinho, e a ver que o carrinho, afinal, estava vazio, – o carrinho de compras, do site – voltaram atrás, "O que é que se passa?", voltavam à frente, afinal, continua vazio; não faziam ideia do que é que poderiam estar a fazer mal.
E outra questão, para a qual vou mostrar um vídeo de um minuto, a seguir, a ilustrar: há instruções confusas e contraditórias; e também, isto vem lado-a-lado com haverem botões que não estão identificados, ou seja, quando- nós vemos estes botões coloridos a dizer: "Adultos", "estudantes", "menores de 6 anos", que são os bilhetes que vamos comprar. Mas o que o leitor de ecrã lê é qualquer coisa como: cinco mil, quatrocentos e trinta e dois, mil... bla, bla, bla. Uma data de números que não fazem sentido, porque eles não foram identificados. E deveriam ter sido.
Antes deste botões há um texto a dizer: "Escolha de lugares"; "Para escolher detalhadamente a zona pretendida, passe o ponteiro do rato por cima de cada zona, ou clique na lista abaixo". Portanto, a impressão com que as utilizadoras ficaram era que estavam a ver um mapa, estes botões eram um mapa, e que estavam a escolher lugares numa sala. Portanto, esta questão não está clara, não está bem feita.
E pronto, agora, vão ver um vídeo que ilustra esta questão.
Quero só introduzir-vos para dizer que este é um excerto do teste que realizámos com uma das utilizadoras. Eu vou ler o contexto da situação que estamos a ver, e a voz robótica e muito acelerada que vamos ouvir é a voz do leitor de ecrã, para quem não souber, e é muito rápida porque as pessoas invisuais estão habituadas a que seja muito rápida para fazerem as suas coisas mais depressa.
E também gostava que fossem a este vídeo a lembrar-se da frustração de ela ter passado 23 minutos a tentar comprar o bilhete e não conseguir. Imaginar esse estado de espírito. E pronto, vou começar. [risos]
[Começa a ser reproduzido um vídeo no ecrã, mostrando o website do Museu Berardo.]
PATRÍCIA: "Os botões que dizem «Adulto», etc, são percepcionados como lugares numa sala".
[UTILIZADORA]: Ah, agora temos a escolha dos lugares. Ah...
[Vozes abafadas na sala. A Patrícia pára o vídeo.]
PATRÍCIA: Ouve-se bem? Estavam a ouvir?
ANA BAILÃO: Sim. Está-se a ouvir no Zoom.
[Patrícia continua o vídeo]
PATRÍCIA: "Os botões que dizem adulto, etc, são percepcionados como lugares numa sala".
[UTILIZADORA]: Ah, agora temos a escolha dos lugares. Ah... Estou a pensar que isto tem um mapa para nós escolhermos o lugar onde nos vamos- podemos ficar na sala. E eu não consigo ver, não é? Portanto, mas ele tem aqui uma opção. E vou ver se esta opção é perceptível.
[NVDA diz números sem sentido]
[UTILIZADORA]: Eu vou fazer aqui um ao calhas, neste caso, porque não consigo perceber qual é que é o tipo de zona ou então tinha de recorrer a alguém que visse para escolher isto.
PATRÍCIA: Depois de tentar comprar o bilhete, clicou em continuar, mas o carrinho está vazio. Desiste e expressa a sua confusão.
[NVDA]: Carrinho de compras vazio.
[UTILIZADORA]: Ah, e está outra vez vazio. Hm, eu supostamente já tinha escolhido o dia porque isto avançou-me para outra zona de formulário, já tinha escolhido a zona, digo eu, não sei; e já tinha dito que era o "Adulto". Portanto, das duas uma: ou alguma destas coisas não ficou marcada e ele não assumiu, na compra final, ou então isto não é acessível.
PATRÍCIA: A própria utilizadora faz uma boa conclusão para esta apresentação [risos]: ou ele assumiu aqui qualquer coisa [errada], ou ele não assumiu a compra, ou este site não é acessível [risos].
Então, conclusões:
Um site de museu acessível é um site que é fácil de usar por todas as pessoas. Para isso é necessário cumprir directrizes, mas também incluir a experiência real de várias demografias a utilizá-lo. E devemos- o site de um museu deve ser acessível porque também é um espaço do museu, e por isso, também faz parte da sua missão ser para todos.
Aqui estão as referências bibliográficas. Obrigado, e obrigado novamente, também, às voluntárias que fizeram o teste.
[aplausos]